é uma página dedicada à evolução da escrita desde os primeiros
registros gravados pelo homem até a revolução tecnológica dos dias de
hoje. Nossa primeira história é sobre
, o homem que popularizou o processo de elaboração dos livros. Veja por quê!
O ano do nascimento é incerto. De sua vida pouco se
sabe pois são raros os documentos que contam sua história. Nem poderia
mesmo haver um extenso registro escrito sobre um homem que viveu na
Idade Média, quando ler e escrever era privilégio de minorias, ainda que
ele fosse o responsável por uma invenção que tornou a palavra escrita
acessível a todos, ditando assim os caminhos por onde passaria a cultura
humana.
Afinal, somente depois que Johannes Gutenberg inventou a
prensa tipográfica, as informações e o conhecimento começaram a ser
divulgados de forma sistemática.Seu invento permaneceu o mesmo
praticamente por quatro séculos. Hoje, ainda que ultrapassado
tecnologicamente, sobrevive enquanto idéia, onde houver palavras
impressas sobre papel.
Johannes Gensfleisch
nasceu entre 1395 e 1400 em Mainz, às margens do Reno, coração da
Alemanha. Conhecido por Gutenberg, o sobrenome de sua mãe, era filho de
uma família de burgueses, uma classe que despertava na estrutura social
da época, prosperando no comércio e nas principais indústrias.
Na
Alemanha daqueles tempos de ocaso medieval, a burguesia já ousava
contestar o poder dos nobres - e a contestação se dava por disputas
armadas. Mas a infância e a adolescência de Gutenberg transcorreram em
tempos de trégua e paz.
Por volta de seus 20 anos, porém, novas
disputas entre nobres e burgueses o forçaram a deixar a já não tão
pacata cidade natal, e o jovem culto e bem-educado foi parar em
Estrasburgo, cidade na fronteira franco-alemã, que viria a fazer parte
da França. Interessado pelas ciências e as artes, Gutenberg gostava
também de pedras preciosas e delas fez seu ofício, tornando-se joalheiro
e ourives.
Em 1437, em plena atividade, em Estrasburgo, foi
chamado à justiça por uma senhorita de nome Ana Isernen Thur. Motivo:
Gutenberg lhe havia prometido casamento e a moça resolveu cobrar a
promessa. O ourives não fugiu ao compromisso e casou-se com Ana.
Empobrecido, Gutenberg se ocupava da feitura de finas jóias, mas não
podia fazer o que adorava: ler e estudar. Os livros confeccionados à mão
eram caros demais e Gutenberg não tinha condições de pagar por eles.
Naquela época, copiar um livro era um trabalho fenomenal. Levava tanto
tempo que só os monges nos conventos podiam passar dias executando essa
tarefa - em latim, é claro. Por isso os assuntos das obras eram quase
sempre religiosos.
O gênio inventivo, mas carente de recursos,
de Gutenberg não se conformava e imaginava um meio de produzir grandes
quantidades de livros de forma muito mais rápida, para que qualquer
pessoa alfabetizada pudesse ler sobre qualquer assunto. A impressão
propriamente dita já existia; ele só teve de usar a cabeça para juntar
várias técnicas e criar a imprensa - algo tão simples quanto o ovo em pé
de Colombo.
A história da impressão sobre papel começara na
China, no final do século II da era cristã.Os chineses sabiam fabricar
papel, tinta e usar placas de mármore com o texto entalhado como matriz.
Quatro séculos depois, o mármore foi trocado por um material mais fácil
de ser trabalhado, o bloco de madeira. Os mais antigos textos impressos
que se conhecem são orações budistas. Foram feitos no Japão entre os
anos 764 e 770; o primeiro livro propriamente dito de que se tem notícia
apareceu na China em 868. O desenvolvimento da escrita deu um novo
salto no século XI graças a um alquimista chinês, Pi Cheng, que inventou
algo parecido com tipos móveis, letras reutilizáveis, agrupadas para
formar textos.
Mas, por alguma razão ignorada, o invento não
prosperou e desapareceu junto com seu inventor. Até essa época, a Europa
só conhecia da tipografia o papel. No século VII, os chineses começaram
a distribuí-lo como mercadoria ao mundo árabe. A técnica de fabricação
foi revelada aos árabes por prisioneiros chineses. Daí até o século XIII
as usinas de papel proliferam de Bagdá, no atual Iraque, à Espanha,
então sob o domínio Mouro. Mas o manual de instruções não veio junto -
ou seja, o processo tipográfico permaneceu firmemente guardado em mãos
chinesas.
Somente no fim do século XIV se desenvolveram por ali a
xilografia, impressão com matriz de madeira, e a metalografia, com
matriz de metal. Um rudimento de impressão de textos por xilografia
apareceu com um holandês de nome Laurens Coster, mas a qualidade final
era tão ruim que a inovação virou letra morta . Tal qual os chineses, a
Europa já conhecia no princípio do século XV o papel, a tinta e a
matriz. Faltava apenas uma idéia por dizer assim luminosa que juntasse
isso tudo num só equipamento.
É quando entra em cena
Johannes Gutenberg,
o ourives culto e curioso. Ao que consta, as primeiras idéias sobre
imprensa lhe ocorreram quando observava um anel com o qual os nobres
selavam documentos, neles imprimindo o brasão da família. Esse anel
tinha o brasão escavado em metal ou pedra preciosa e deixava uma
impressão em alto-relevo sobre o lacre quente. Gutenberg achou que o
mesmo princípio serviria para imprimir letras, mas logo viu que o método
deveria ser posto de cabeça para baixo: em vez de escavada em um bloco
de madeira, a parte que serviria para imprimir deveria ficar em
alto-relevo.
Foi assim que ele imprimiu várias imagens de São
Cristóvão e, como bom católico, as levou ao bispo de Estrasburgo. O
bispo não podia imaginar como o ourives conseguira tantas imagens
iguais, já que seus monges levavam muito tempo para desenhar apenas uma.
Gutenberg, fazendo segredo de seu invento, saiu da conversa carregado
de encomendas de imagens religiosas, solicitadas por sua excelência
reverendíssima. Mas seu alvo continuava sendo imprimir uma página
inteira. Para tanto obteve do bispo um livro emprestado e entalhou uma
página na madeira. Obviamente, as palavras saíram ao contrário, um
contratempo que naturalmente não acontecia com imagem dos santos.
Como
era apenas uma questão de inverter os termos do problema, ele esculpiu
as letras ao contrário na madeira - e deu certo. Gutenberg logo
percebeu, porém, que esculpir página por página um livro em placas de
madeira era um trabalho descomunal. Pensou então em cunhar as letras
separadamente, primeiro em madeira, depois em chumbo fundido. Inventou
uma fôrma que pudesse segurar os tipos juntos para compor uma página.
Fabricou ainda tintas e escovas próprias para espalhá-las sobre os
tipos. Até aí seu trabalho se equiparava ao dos chineses de séculos
atrás. Faltava o pulo-do gato - tornar o processo mecânico, para
imprimir mais rápido e com melhor qualidade do que à mão.
Gutenberg
desatou o nó: adaptou uma prensa que servia para produzir vinhos. O
mecanismo consistia em um suporte fixo e uma parte superior móvel em
forma de parafuso. A fôrma com os tipos unidos era colocada sobre o
suporte, recebia uma camada de tinta e por cima a folha de papel. A
parte superior era depois movida para baixo, pressionando o papel contra
os tipos. Estava inventada a impressão tipográfica, uma tecnologia que
sobreviveria com poucas modificações até o século XIX. Mas, então, havia
muito que deixara de ser apenas um aparato para produzir cópias com
rapidez. O invento de Gutenberg fizera desabar sobre uma Europa em
mutação social, econômica e religiosa a idéia da difusão do
conhecimento. Foi mais lenha na fogueira da efervescência cultural que
acabaria por consumir a Idade Média.
A invenção da imprensa, na
aurora dessa época também de grandes descobertas foi metade causa,
metade efeito do movimento de transformações pelas quais passava o mundo
europeu.O continente assistia ao nascimento da burguesia mercantil como
ator político, buscando desalojar a aristocracia rural do centro das
decisões. No campo das idéias religiosas, eclodia a crise que levaria à
Reforma protestante. A disseminação dos protestos de Lutero, na escala
que ocorreu, só foi possível graças ao invento daquele outro alemão dado
a ourivesaria.
A curiosidade intelectual já tinha levado à
criação das primeiras universidades, no século XII, e apontava agora na
direção de se recuperar o conhecimento humano proveniente de qualquer
fonte, como as obras dos antigos gregos e romanos, familiares apenas aos
doutores da igreja.
A sociedade em que vivia Gutenberg passava
por um crescimento populacional comparável ao aumento da produtividade
na indústria e no comércio. Na Idade Média descobriu-se a pólvora, o
relógio mecânico, aperfeiçoou-se a navegação à vela, que levaria os
europeus a novos mundos. A Itália florescia em pleno Renascimento,
irradiando a Europa com um desejo de enriquecimento cultural e
civilização mais dinâmica. Só faltava colocar todas essas idéias no
papel. Foi o que fez Gutenberg. Os livros impressos com sua invenção
disseminaram o hábito de ler e escrever e deixaram a cultura ao alcance
das novas classes sociais, cujo poderio deitava raízes nas cidades. Como
a vida de Johannes Gutenberg passou quase sem registro, a data da
invenção da prensa tipográfica é igualmente incerta. Tudo o que se sabe
do inventor é o que consta nos documentos comerciais ou judiciários. Mas
esses poucos papéis permitiram deduzir que, durante suas pesquisas
sobre tipografia em Estrasburgo, ele gastou quase todo o dinheiro antes
que chegasse a produzir qualquer coisa que lhe proporcionasse uma renda.
Por volta de 1438, formou uma sociedade com três burgueses da
cidade, Andreas Dritzehn, Hans Riffe e Andreas Heilmann. Gutenberg já
tinha então construído sua prensa, um segredo que guardava a sete
chaves. Começou publicando folhetos e livretos religiosos, mas a morte
de Dritzehn naquele mesmo ano lhe trouxe problemas com a justiça. Os
irmãos Dritzehn processaram Gutenberg porque queriam herdar o direito de
entrar na sociedade, mas perderam a causa. Foi nos documentos deste
processo que apareceram os primeiros registros deste invento. A
publicação dos livretos religiosos, que Gutenberg vendia como
manuscritos, continuou por algum tempo, até que a bancarrota total o
levou à cidade natal de Mainz. Provavelmente já estava ali quando
imprimiu o Weltgeritch (Juízo do Mundo), um poema alemão anônimo,
considerado o mais antigo testemunho da tipografia européia, do qual
sobrou apenas uma página.
Em 1448, portanto com cerca de 50 anos,
Gutenberg conseguiu o patrocínio de um financiador chamado Johann Fust,
a quem confiou o segredo da invenção, para imprimir seu primeiro livro.
Fust investiu no trabalho de Gutenberg 800 florins, soma considerável
de dinheiro na época. Dois anos depois, mais 800 florins saíram do bolso
de Fust para a mão de Gutenberg, mas a conta cobrada foi amarga.
Gutenberg trabalhava com o auxílio de Peter Schoffer, um artesão de
tipos tão bom quanto ele próprio. Em 1455, como o livro não ficou
pronto, Fust cobrou judicialmente a devolução do financiamento.
Gutenberg tentou imprimir às pressas as Cartas de Indulgência do papa
Nicolau V, de venda rápida, mas não escapou à falência. A oficina de
impressão caiu nas mãos de Fust e Schoffer, que por volta de 1456
publicaram o primeiro livro impresso: a chamada Bíblia de 42 linhas,
obra de 642 páginas, com tiragem de duzentos exemplares. Tinha esse nome
porque cada uma das duas colunas em suas páginas tinha 42 linhas. Saiu
sem data nem local ou nome dos impressores.
Era oficialmente a
Bíblia de Fust. Mas fazendo justiça ao seu verdadeiro autor foi
apelidada de A Bíblia de Gutenberg. Johann Fust e Peter Schoffer, que
viria a se tornar seu genro, publicaram um ano depois o primeiro livro
com indicação de data, local de edição e impressores, O Saltério Latino,
uma versão dos Salmos do Antigo Testamento. Fust parecia ter a noção de
que o invento em seu poder era fantástico - ele fazia seus empregados
jurar sobre a Bíblia que não revelariam a ninguém os segredos da
impressão e mantinha-os sob algo próximo a um cárcere privado. O pobre e
densonrado Gutenberg, por sua vez, só escapou da ruína total graças a
um funcionário municipal de Mainz, Konrad Humery, que lhe proporcionou
os meios de montar outra oficina de impressão.
Não se sabe ao
certo se Gutenberg deu continuidade ao seu trabalho. Acredita-se que
tenha imprimido ainda o Catholicon do frade, Johannes Balbus, e uma
Bíblia de 36 linhas. Mas a autoria da impressão dessas duas obras,
principalmente a da Bíblia, é duvidosa, pois são de qualidade inferior à
que Gutenberg já alcançara. Em 1462, Gutenberg voltou a Estrasburgo
para fugir de novas guerras em Mainz. Três anos depois, ele regressaria à
terra natal sob a proteção do arcebispo Adolfo II, que ainda por cima
lhe proporcionou uma pensão, garantindo roupas, comida e vinho. Em
fevereiro de 1468, com aproximadamente 70 anos, o inventor da prensa
tipográfica morreu.
A desavença com Johann Fust quase custara a
Gutenberg a paternidade de seu invento. A bíblia de 42 linhas saiu sem
créditos e o saltério, que usava a mesma técnica, levava apenas o
crédito de Schoffer. A escassa documentação poderia deixar obscuro
também esse ponto em sua vida, não fosse o esforço de alguns
contemporâneos, como o padre Adam Gelthus, que fez inscrever no túmulo
de Gutenberg: " O inventor da arte de imprimir". O próprio neto de Fust e
filho de Schoffer, Johannes, eliminou as dúvidas ao escrever na
dedicatória de um livro ao imperador Maximiliano, 1505, ter sido a arte
da tipografia inventada em Mainz "pelo engenhoso Johannes Gutenberg".
Artigo Extraído da Coluna "Perfil" da Revista Superinteressante