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terça-feira, 19 de março de 2013

Caminhão-museu percorrerá o Brasil com acervo sobre luta agrária.

Projeto tem curadoria de Gringo Cardia





Uma parte da história do Brasil ganhou rodas, motores, boleia e baú. O caminhão-museu Sentimentos da Terra vai percorrer o país para contar a trajetória dos movimentos ligados à luta agrária.

Com curadoria do renomado cenógrafo, arquiteto, designer e diretor de arte Gringo Cardia, o projeto reúne videodocumentários; biblioteca especializada com livros de arte, fotografia, geografia e história, além de jornais e revistas; espaços equipados com computadores, acesso à internet e monitores com tela interativa. Será exibida mostra que retoma o legado de oito personagens exemplares dos conflitos no Brasil rural – entre eles estão o visconde do Uruguai, Chico Mendes, Leonel Brizola e Euclides da Cunha.

A iniciativa é fruto de parceria entre o Projeto República: Núcleo de Pesquisa, Documentação e Memória, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead), do Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Maquetes instaladas no museu itinerante servirão de palco para contadores de histórias narrarem movimentos e episódios ligados à luta pela terra. “Será o caminhão da alegria e da consciência crítica. Um parque de diversões que faça você refletir sobre valores que devem ser incentivados, como o bem-estar, a ética e a justiça”, explica Gringo Cardia.

A ideia é oferecer ao público algo leve e atrativo, detalha o cenógrafo. “Os visitantes vão se sentir parte do Sentimentos da Terra, porque poderão ser fotografados em cenários elaborados a partir do universo rural, inclusive usando figurinos próprios a personagens ligados a essa questão. Também vamos colher depoimentos de quem tiver algo a contribuir sobre a luta agrária”, destaca Gringo.

O cenógrafo desenvolveu o projeto durante três anos. O caminhão está estacionado na frente da Reitoria da UFMG, no câmpus da Pampulha, em Belo Horizonte. No fim do mês, seguirá para outras cidades. A professora Heloísa Starling, coordenadora do Projeto República, explica que a iniciativa tem o propósito de valorizar a população considerada “invisível”.

“É importante resgatar a história das pessoas que ficaram esquecidas. Até para a gente que trabalha com o tema, surpreenderam as informações e os dados colhidos. O caminhão vai sair de Minas e andar pelo Brasil contando a nossa história. Já temos algumas turnês fechadas, a intenção é que ele percorra do Oiapoque ao Chuí”, adianta Heloísa.

No fim de março, o Sentimentos da Terra segue para Brasília. Depois, estacionará em Goiânia, voltará a Minas Gerais e chegará a Jequitibá, perto de Sete Lagoas, na Região Central do estado. A segunda turnê contemplará Poços de Caldas, no Sul de Minas, e Limeira, no interior de São Paulo.

Como o veículo estará sempre em movimento, a ideia é incorporar novos repertórios à agenda, explica Heloísa Starling. Isso inclui as notícias recentes sobre a questão agrária, pois um painel interativo será atualizado, exibindo reportagens de jornais, revistas e sites.

“Costumo brincar: é a maior loucura que já fizemos, uma coisa muito ousada. Essas histórias têm de ser contadas tanto para o jovem que está em Ipanema quanto para o morador da Raposa Serra do Sol, em Roraima, e encantar os dois. Não é uma tarefa fácil”, frisa a professora.

Mutirão de estrelas

Os videodocumentários são capítulo à parte do projeto. Produzidos por Gringo Cardia a partir do conteúdo histórico pesquisado pelo Projeto República, eles são narrados por importantes nomes da cultura brasileira.

O público assistirá a um elenco de peso. Apoiaram a iniciativa o ator Caio Blat (Marchas pela terra), o músico Chico Buarque (O sonho republicano e a luta pela terra no Brasil), a atriz Dira Paes (Sindicalismo rural), o compositor Gilberto Gil (Quilombolas), o ator José Wilker (Cultura e educação no campo), a atriz Letícia Sabatella (Índios), o ator Marcos Palmeira (Repressão e violência no campo), a cantora Maria Bethânia (Canudos), a apresentadora Regina Casé (Legislação agrária), a atriz Vera Holtz (As experiências socialistas e anarquistas no campo) e o ator Wagner Moura (Margens da marcha para o Oeste).

“Minha pesquisa tem 20 laudas. Arrumamos documentos históricos e fizemos animações. A imagem é um documento de época, só que animado. Dessa forma, criamos nova linguagem na historiografia brasileira. Tudo para deixar o conhecimento de maneira bonita, com conteúdo e interessante”, ressalta Gringo Cardia.

Roberto Nascimento, diretor do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead), do Ministério do Desenvolvimento Agrário, diz que o caminhão-museu vai prestar importante serviço aos brasileiros. “Estamos produzindo muito conhecimento sobre a luta pela terra. Agora, temos de acelerar o processo de apropriação disso pela população de maneira interessante, com cultura, tecnologia de ponta, encantamento e conteúdo. O mais importante é que tanto os moradores das metrópoles quanto do interior e do campo vão ter a oportunidade de conhecer o museu ambulante”, conclui.

FONTE: Diário de pernambuco. Reportagem publicada no dia 19/3/2013

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